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Rito de passagem

"...e andando pelo caminho..." (Deuteronômio 6.7) Saindo com Lucas da casa dos meus pais, numa visita relâmpago que lhes fizemos, cedi aos seus insistentes apelos para vir no banco da frente (ele tem 8 anos). Quando se está a sós com o seu primogênito, é bom aproveitar as oportunidades.  - Pai, coloca uma musiquinha. Ele já estava todo pimpão por viajar no carona, mas queria mais. Queria uma "musiquinha". Quando no banco de trás, ele também pede "uma musiquinha". Mas agora a condição é outra. Ele está do meu lado, e este é um importante rito de passagem. Pede com a autoridade de quem passou de fase. Às ordens, chefe. Enquanto a música rolava, me peguei pensando nos meus pais. Deus, como estão envelhecendo! Até ontem eles apertavam a minha mão para subirmos no ônibus. Foi ontem que minha mãe, inconformada, ouviu do cobrador que eu tinha de pagar a passagem. Lembro de ter ficado feliz. Vamos lá, mãe. Pague logo esse negócio. É o meu momento! Ela pagou. A co...

Sobre confiar

Peço que meu filho leia um texto que eu previamente já li. Quando noto que ele leu errado, mando-o ler de novo. De novo ele lê errado e de novo eu mando que releia. Então ele lê certo. Queria adivinhar a palavra. Digo-lhe sempre: confie na palavra, no que está escrito! Fui ver o DVD de um artista para ver se conseguia tocar determinada música do jeitinho que ele toca. Fiz o mesmíssimo acorde, mas o som definitivamente não era o mesmo. O que poderia haver de errado? Resolvi ignorar o que via e confiar no que ouvia e... bingo! Consegui o mesmo som! Foi quando lembrei que os DVDs estão cheios de overdubs .  Nesse processo de alfabetização, tenho ensinado meu filho a confiar no texto. Mesmo os erros de digitação são didáticos, pois o forçam a deduzir a palavra correta. Nada de tomar uma palavra desconhecida por outra conhecida e de grafia próxima. Nada de adivinhação  –  que, aliás, não é coisa de crente.  A “realidade” muitas vezes vem mascarada com overdubs . Mas as ve...

O jovem reducionista e sua avó carola

— Não aceito que tio fulano vote no candidato X, vó. Não aceito!  — Pois aceite, filho.  — Mas vó, se tio vota no candidato X significa que ele crê nisso, nisso e naquilo, e que portanto vai apoiar isso, isso e aquilo, e que portanto é uma pessoa má assim e assado. Ponto, vó!  — O mundo, as pessoas são mais complexos do que isso, filho. E pare de reduzir tudo a política. — Mas o rio sempre corre para o mar, vó!  — Sim, meu filho. É verdade que todo rio corre para o mar. Mas isso não significa que agora jacaré vai comer anchova. 

Olho no tempo, seu padre!

No medievo os monges desenvolveram o relógio para regular seus períodos de oração, e os sinos nas igrejas marcavam as horas. Hoje, o padre vê a hora no celular e, com um piparote no cocuruto, avisa ao coroinha que ele está atrasado para tocar o sino das 18h. “Já vou, santo padre, já vou!”, diz o coroinha esfregando o quengo, mas já é tarde demais: são 18h03 e os fiéis já arrumaram outro compromisso.

Lições que nos dão os cocos

(Postado originalmente em meu Twitter , em 22/01/2020)   Hoje veio um senhorzinho de sessenta e poucos anos limpar o coqueiro aqui de casa. Está nessa atividade desde os catorze, e, segundo disse e conforme pude confirmar, entende de coco como ninguém. Mas não só de coco, pelo visto. “O homem é um ser muito inteligente, mas quero ver botar água dentro do coco”, disse ao abrir um para que eu tomasse. De fato. Apontei-lhe um coco doente e mirrado dentre o cacho, e ele disse: “Toda família tem um assim, né?”. É, tem. Mostrou-me um cacho promissor e disse: “Está vendo? Bonitos por fora, secos por dentro”. Abriu e, de fato, não tinham água. Em seguida, pegou um daqueles doentes e disse: “Esse aqui terá a água mais doce de todos, quer ver?”. E tinha. O que parece nem sempre é. Como são os cocos, assim é a vida. E o seu “Baixinho do Coco” (é o apelido dele) só confirma o que todos já estão fartos de saber: que velhinhas carolas sabem mais.