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Sobre confiar

Peço que meu filho leia um texto que eu previamente já li. Quando noto que ele leu errado, mando-o ler de novo. De novo ele lê errado e de novo eu mando que releia. Então ele lê certo. Queria adivinhar a palavra. Digo-lhe sempre: confie na palavra, no que está escrito! Fui ver o DVD de um artista para ver se conseguia tocar determinada música do jeitinho que ele toca. Fiz o mesmíssimo acorde, mas o som definitivamente não era o mesmo. O que poderia haver de errado? Resolvi ignorar o que via e confiar no que ouvia e... bingo! Consegui o mesmo som! Foi quando lembrei que os DVDs estão cheios de overdubs .  Nesse processo de alfabetização, tenho ensinado meu filho a confiar no texto. Mesmo os erros de digitação são didáticos, pois o forçam a deduzir a palavra correta. Nada de tomar uma palavra desconhecida por outra conhecida e de grafia próxima. Nada de adivinhação  –  que, aliás, não é coisa de crente.  A “realidade” muitas vezes vem mascarada com overdubs . Mas as ve...

O jovem reducionista e sua avó carola

— Não aceito que tio fulano vote no candidato X, vó. Não aceito!  — Pois aceite, filho.  — Mas vó, se tio vota no candidato X significa que ele crê nisso, nisso e naquilo, e que portanto vai apoiar isso, isso e aquilo, e que portanto é uma pessoa má assim e assado. Ponto, vó!  — O mundo, as pessoas são mais complexos do que isso, filho. E pare de reduzir tudo a política. — Mas o rio sempre corre para o mar, vó!  — Sim, meu filho. É verdade que todo rio corre para o mar. Mas isso não significa que agora jacaré vai comer anchova. 

Olho no tempo, seu padre!

No medievo os monges desenvolveram o relógio para regular seus períodos de oração, e os sinos nas igrejas marcavam as horas. Hoje, o padre vê a hora no celular e, com um piparote no cocuruto, avisa ao coroinha que ele está atrasado para tocar o sino das 18h. “Já vou, santo padre, já vou!”, diz o coroinha esfregando o quengo, mas já é tarde demais: são 18h03 e os fiéis já arrumaram outro compromisso.

Lições que nos dão os cocos

(Postado originalmente em meu Twitter , em 22/01/2020)   Hoje veio um senhorzinho de sessenta e poucos anos limpar o coqueiro aqui de casa. Está nessa atividade desde os catorze, e, segundo disse e conforme pude confirmar, entende de coco como ninguém. Mas não só de coco, pelo visto. “O homem é um ser muito inteligente, mas quero ver botar água dentro do coco”, disse ao abrir um para que eu tomasse. De fato. Apontei-lhe um coco doente e mirrado dentre o cacho, e ele disse: “Toda família tem um assim, né?”. É, tem. Mostrou-me um cacho promissor e disse: “Está vendo? Bonitos por fora, secos por dentro”. Abriu e, de fato, não tinham água. Em seguida, pegou um daqueles doentes e disse: “Esse aqui terá a água mais doce de todos, quer ver?”. E tinha. O que parece nem sempre é. Como são os cocos, assim é a vida. E o seu “Baixinho do Coco” (é o apelido dele) só confirma o que todos já estão fartos de saber: que velhinhas carolas sabem mais.